quinta-feira, 27 de julho de 2006

Amiguitos do deserto

Friends of Dean Martinez: "Atardecer" (Knitting Factory; 1998)

«- Why did you bought that?
- Because it was cheap.»
Monty Python

Na Feira Laica, comprei este disco por ser barato (custou 1€ no expositor dos produtos culturais em segunda mão... o disco pertencia a um certo Escroque!) e por ser da Knitting Factory. De resto não tinha a mínima ideia o que poderia soar. E realmente pode haver alguma sorte nesta irracionalidade - mesmo que isto faça lembrar um excelente sketch dos Monty Python que expõe ao ridículo a adqusição de coisas só porque são baratas.
À primeira faixa ainda não se percebe bem se vou apanhar com experimentalismo Free ou algo parecido mas já no segundo tema, Ethchlorvynol, apercebo-me que comprei uma daquelas merdas de Alt-Country ou Tex-Mex ou Western-Sparghetti ou Americana ou isso. No entanto em registo meramente instrumental, há mais que um mero sentido melódico linear ou folclórico. Há Bossa Nova em Otra vez (4ª tema), pitadas de Tiki ou Lounge aqui e acolá, graças às guitarras que abragem o acústico, o eléctrico e o psicadélico-espacial em vários pesos e medidas, mas também ao uso de theremin, harmónicas e mais outros tantos instrumentos que (re)criam o calor do deserto - Ennio Morricone seria a boa referência mas também a mais óbvia - e talvez por isso que o título "Atardecer" seja realmente o conceito (ou a imagem) para rotular este disco. É música para ouvir ao fim de tarde depois do dia "caliente"... Ao lado, uma Cuba Libre ou uma bebida mais sofisticada ma no tropo.
O Escroque vai-se arrepender de ter despachado isto a um Euro!

Qualidade numérica: 4/5 Objectivo pós-audição: guardar e ouvir nos momentos de descanso pequeno-burguês...

Ist Deutsche Hip Hop, Mann!

Keilerkopf: "Dreimannmensch" (Motor Music / Universal; 2001)

Admito que uma das razões do meu gradual desinteresse pelo Entulho Informativo deve-se ao facto de passar mais tempo a ouvir música que não gosto como os cineMierda do que os CD's e K7's que gosto. É que isto de escrever para uma revista tem alguma responsabilidade e por isso por mais merdoso que fosse um disco, escutava (demasiadas) vezes à procura de alguma justificação para dizer que o disco tinha razão de existir ou de um tema (só um tema!) que fosse fixe.
Mas não desperdiçava o meu tempo só com os "CD's promocionais", também com as compras selvagens como esta que escrevo hoje. Este CD é mais um caso de estupidez consumista, comprei a um atrofiado luso-germânico nas Fantasias de Natal naquela do que-sa-foda-é-Natal-e-é-barato. A coisa não é muito mázinha embora a capa seja xunga (desenhada por um tal de Per Elbke), o tipo que mo vendeu disse que era "Hip-Hop marado" mas o que ele queria dizer é que era "Crossover" - de beats porreiros com guitarradas metalizadas, com umas pintas de foleiradas sinfónicas do pior Rammstein -, um sucedâneo de Clawfinger (em alemão!). Neu Metal*? Alguns temas tem alguma potência mas nada que um tipo fique agarrado, também há sensibilidade Pop (em alemão para principiantes) tão interessante como duas moscas a copularem. Porquê é que escrevo sobre eles? Não sei, talvez porque o "mau" fica mais rapidamente na cabeça do que o "bom" - acho que todos nós temos músicas pimbas que gostaríamos de eliminar da nossa memória. A mediocridade é mais estimulante sabe-se lá porquê. Neste caso, intelectualmente percebo que não há aqui nada de novo ou de muito estimulante mas o facto de ter um produção profissional que se torna orelhuda. O facto de ser cantado em alemão (não percebo quase nada) ajuda o produto a tornar-se exótico q.b - imagino que estes tipos devem ter coisas tão interessantes para dizer como os Limp Bizkit ou os Slipknot. Assim as letras não chateiam e a voz reduz-se a um "som instrumental". Kein Problem!

Qualidade numérica: 2,6/5 Objectivo pós-audição: dia 7 de Setembro na Festa de Troca de Discos no Espaço!

* pronunciar "nói métale" ;)

quarta-feira, 26 de julho de 2006

Illbient é um abuso...

Valis 1: "Destruction of syntax" (Subharmonic; 1995)

"Illbient" é um daqueles nomes porreiros que se criou para um género de música ambiental que seja "cerebral", ou melhor "doentia". Quem a denominou foi malta das "vanguardas" Dub e do Hip-Hop nos meados dos anos 90 do século passado - o wikipedia acusa DJ Olive dessa paternidade. Apesar de ser um nome catita esqueceram-se que "ambientes doentios" há muitos, e nisso a Electrónica e o Industrial desde os 60/70 já nos tinham toneladas de música insana, enervante e "dark". O Illbient não assusta nem enerva dado à acessibilidade "dançante" (do ritmo gingão do Hip-Hop) e até diria que relaxa - se calhar sou eu que sou um depressivo de primeira.
Seja como for, tal como tinha prometido aqui, eis-me a escrever sobre este projecto que saca (homenegeia?) o título do grande livro "Valis" do mestre PKD. O disco é comissariado pelo ubíquo / dono-de-mil-projectos Bill Laswell e reúne cromos conhecidos deste (sub)género: DJ Spooky, DXT, Corporal Blossom, Jungle Brothers (que só são creditados por JB), Spectre, DJ Olive, We e Automaton que participam todos com músicas que comunham uma viagem negra pela urbe norte-americana e até pelo orientalismo exótico. Longe de qualquer susto, ouve-se bem tal é a fantasia que nos envolve os beats e samples. Tenho de fumar uma ganza para perceber melhor isto...

Qualidade numérica: 4/5 Objectivo pós-audição: guardar até apanhar o próximo disco do Bill Laswell ou de Corporal Blossom - este último tem aqui as melhores (três) faixas do disco...

terça-feira, 25 de julho de 2006

DEA report 4

E se o Samizdata Club se apresentou como um espaço ultracultural de confronto e experimentação artística e social incentivado por um colectivo de editoras discográficas, bd, produtores (...) que decidiram dar resposta a lacunas existentes no panorama artístico nacional através de sinergias e parcerias, de forma a criar uma efectiva rede de disseminação de informação por canais alternativos então tal tem realmente acontecido. Já vai na sua 8ª edição (e a segunda fora de Lisboa) e continua a mostrar que, mais importante do que as vendas nas bancas ou outros motivos materialistas, é o facto que consegue fazer com que pessoas amantes de uma cultura alternativa (expressão que uso para designar uma cultura que fuja do espectáculo pirotécnico dos mass-media) se encontrem num espaço para se conhecerem. Mesmo fora do seu habitual raio de acção - Lisboa e a Caixa Económica Operária - tal tem sucedido, como aliás aconteceu no excelente espaço que é o "estaleiro cultural" Velha-a-Branca. Há copos, há concertos, há festa e há bancas com produtos culturais. Não há forma de enganar sobre o sucesso deste evento - e o sucesso nunca poderia ser pirotécnico, claro está...

Longe das (suas) bases habituais foram lançados novas edições tão variadas como livros (Lucrécia de Rafael Dioníso pela Chili Com Carne), zines (Belo Cadáver da Imprensa Canalha - que fez também o cirúrgico cartaz) e discos, nomeadamente "Blot og Mono Middagshvil" (Thisco + Fonoteca de Lisboa; 2006) de Tore H. Boe e Anla Courtis. Apesar dos seus enormes currículos - especialmente a postura artística do primeiro que criou uma "República Virtual Artística" (vejam o link!) - o disco, um CD-EP de 20 e tal minutos e 16 faixas, parece mais um "CD-sampler de sons" do que uma obra per se. Constituído por ruídos ambientais, industriais, experimentais, e outros "ais" com cada faixa com pouco mais de 1 minuto, ficamos com a sensação que cada faixa é uma peça criada para ser um fragmento que dificilmente conseguirá associar-se aos outros. Não que isso seja mau mas também não empolga muito neste caso. [3; Festa de Troca de Discos... deve ser fixe para remisturar algo]

A cena "live" desta vez (e mais uma vez) foi com Sci fi Industries mas num "versus" com o bracarense Tatsumaki. Correu bem. Tatsumaki é mais dado a "barulhos electrónicos" o que coincidia bem com os ritmos de Sci Fi. O espectáculo foi no maravilhoso jardim da Velha-a-Branca tal como foi o resto da festa com o meu un-djing. Desta vez a experiência não foi lá muito interessante ao contrário das outras anteriores em espaços frondosos (como foram as duas tardes na Estufa Fria durante o Salão Lisboa 2005). Ou era a maquinaria que estava marada por causa das configurações anteriores do "live-act" que foderam completamente o som de Brujeria e Godflesh, ou era a ausência de reacções do público - sentado num jardim quando o que tinha era um "set" mais para um espaço fechado e para dançar. Por erros de comunicação com a organização do "estaleiro cultural" nunca pensei que ficaria no jardim... Ainda assim houve um freak que gostou dos Reagges e um grupo de pessoas numa mesa riram-se com as versões foleiras de Richard Cheese a Nirvana («this one is for the ladies... Rape me») e Radiohead.

Inesperado o encontro de um tipo que conhecia o Filipe dos I.M.M. (Industrial Metal Machine), uma banda de Braga cujo o nome rotula completamente o som. Era um trio com muito power & groove que infelizmente só gravaram meia dúzia de temas espalhados no segundo volume d'À sombra de Deus (CM de Braga, 1994) e Change your oil (Garagem; 1996). Foi daqueles tipos que conheci através dos zines e que nunca vi in loco, apesar de ter trocado zines e CD's por correio durante algum tempo. Acompanhei e divulguei o seu trabalho (underground) após o fim dos I.M.M. - a Chili Com Carne chegou a fazer um vídeo-clip do Mutate & Survive para SIC Radical com banda sonora da banda. Não sei bem porquê mas perdi o contacto do Filipe nos últimos dois anos e de repente aparece um tipo a dizer que me conhecia por causa dele, dos meus zines e isso tudo... fiquei a saber que tinham um novo projecto - esse tipo também fez parte dos I.M.M. ou percebi mal? o gajo estava com uma jarda e eu para lá caminhava. Trocamos galhardetes e eis o link para os Slate Machine - que estão virados para o Electro como poderão perceber depois de os ouvir.

Por fim, mais um caso de anormalidade cósmica, finalmente conheci - depois de 10 anos de correspondência zinista bilateral - o António Silva, gestor do "estaleiro". O seu trabalho, dedicação e profissionalismo estão à vista, a julgar pelo que pude desfrutar nesta visita. Obrigado por tudo!

sábado, 15 de julho de 2006

domingo, 9 de julho de 2006

DEA report on "Inguine @ Lx com unDJ GoldenShower || CREW HASSAN"

Ontem à noite, inaugurou a exposição Cartografia da Máfia italiana: bandas desenhadas pelo colectivo Inguine no espaço Crew Hassan, onde estiveram presentes os editores Gianluca Costantini e Elettra Stamboulis. Uma exposição de prints de várias bd's deste colectivo. Antes, durante a tarde na Bedeteca de Lisboa inaugurou uma exposição intitulada Banda Desenhada política: esboços sobre a realidade por Gianluca Costantini mais interessante por estar mais acessivel no que diz respeito à língua (está em inglês) e mais coerente por ser uma individual. Seja como for, é de se ver as duas exposições para entrar em contacto com o trabalho deste colectivo italiano, Inguine.

O chato foi o que aconteceu ontem no Crew Hassan, quando se pretendeu fazer a projecção de filmes de animação do colectivo - bem como a suposta "festa-convívio" que deveria ter aqui o vosso infame un-dj GoldenShower. A desorganização deste espaço foi brutal. Primeiro, marcaram uma festas com o "piple eramus" com mais um DJ ou quer dizer que iria só pôr uma hora de som quando deveria fazé-lo a "noite inteira"... portanto decidi que só iria passar um CD qualquer para criar ambiente. Mas o universo é irónico e o mundo dá muitas voltas. Haviam 15 filmes de animação para passar e o leitor DVD, em selecção manual, não permitia ver todos os filmes de uma vez, e pior, não permitia saltar de filme para filme. Do comando do leitor ninguém sabia, o outro leitor de DVD não lê CD's copiados, o portátil "desapareceu". Enfim, uma tristeza por uma situação idêntica de projecção de filmes de um CD-Rom já tinha acontecido anteriormente e apesar da organização do Crew Hassan terem o CD dos filmes há uma semana não se lembraram de fazerem a "coisa como deve ser"! Bem à 'tuga, lá se sacou o PC do escritório, com o irmão-muçulmano-mariachi Pepedelrey a dar uma valente ajuda - obrigado, amigo!

Mas não havia saída de som dos filmes! Problemas com os cabos aúdio e o projector... E quem vai fazer de "banda-sonora"? Eu, com 4 CD's que tinha trazido por mero acaso - ah! um dos discos só tinha a caixa!!! Para passá-los, tinha só um leitor de CD's que nem dá para ver os números das faixas nem a duração! E sabem o que mais? Correu incrivelmente bem... Começou com várias músicas de Dub-Hip-Hop-Industrial dos Techno Animal, curiosamente um dos filmes usava uma música desta banda (Bio.HAZARDUS de Paper Resistance, minimalab e Manfred Regen). Especialmente bem esgalhadas (é bom conhecer os nossos discos de uma ponta à outra!) as músicas Freak fucker e The Western lands (faixa de um projecto orientado por Bill Laswell em que se ouve W.S. Burroughs e Iggy Pop a recitarem textos), esta última no Un giorno a mio fratello è scoppiato un piede (de Gianluca Costantini e Leonardo Guardigli).

Muda-se de CD (silêncio de 10 segundos e aproveitando o fim de um filme) e por acaso era uma colectânea, o sampler CD #41 da revista gótica Elegy (não se riam comprei por curiosidade!) e que permitiu várias "bandas sonoras" sincronizadas com as estéticas dos filmes. Desde o ínicio com Backstabber dos Dresden Dolls, passando prás agressões dos Ministry e Alec Empire (acompanhados por umas imagens Gore q.b) saltando para lameciches do Gary Numan com o tema In a dark place. Outro momento bem sacado foi com Die Seherin de Orphid e Cthlhu Dawn de Flint Glass para um filme extremamente lento e descritivo (sobre experiências animais). Na faixa de Orphid (na onda do gótico operático bufo para não dizer outra coisa!) ouvia-se uma voz feminina a cantar em alemão - alguém gritou "pá, música em alemão, hoje não!". Isto porque Portugal perdeu com a Alemanha no Mundial... por mim era mais uma razão para ouvirem som germánico porque odeio a merda do futebol! Heil! Para acabar o CD, o melhor da rodela, a agressividade Noise dos Whitehouse e o tema Dumping the fucking rubbish.

Para acabar a performance nesta noite de som que se prolongou mais do que o (mal)programado da organização, mudei para o último CD, cheio de Dub de Valis 1, Destruction of syntax (Subharmonic; 1995), outro projecto orientado por Laswell e que brevemente farei uma resenha neste blogue.

De forma geral e dadas às condições técnicas nojentas, (muita) modéstia à parte, não tive mal e devo ter tido uma sorte divina. Gostei da experiência - tal como já tinha tido um cheirinho com a noite dos Le Dernier Cri no extinto Lx Café. Mais (e más?) experiências no Crew Hassan é que não. Em Agosto estarão quase fechados e não haverá uma sessão de Troca de Discos, adiada assim para o primeiro Domingo de Setembro. Poderá ser a última vez neste espaço se a desorganização e as más condições técnicas se manterem. Que venham as férias primeiro!
Espero que o Gianluca e Electra tenham gostado, fiz o melhor possível!

PS - pelos vistos devem ter gostado caso contrário não tinham colocado nada no seu blogue.

segunda-feira, 3 de julho de 2006

DEA report on "Troca de Discos com unDJ GoldenShower || CREW HASSAN"

Ontem lá foi mais um sessão da Festa de Troca de Discos no Crew Hassan (a decorrer todo o primeiro domingo do mês). Das 18h às 21h30 não apareceu ninguém - ou melhor, ninguém para trocar discos - o que foi um bocado triste e desanimador.

Aproveitando o facto de não estar ninguém e eu não ter uma aparelhagem para ouvir discos em vinil (que porra de DJ serei eu?). Ouvi o single "Master-piece" (7" '04?; Cock Energy / Buriedinhell) dos Knife Thru Head, preenchido num lado com 3 temas Crust fodido com saxofone em clima psicótico, orgiático e escatológico e do outro lado uma versão ao vivo de "I want your sex" do George Michael (celebrando o facto de Georgios Kyriacos Panayiotou ter sido apanhado a tentar mexer em pilinhas alheias numa casa-de-banho pública em 1998). Alta energia brutal, estes tipos! Mesmo quando estava misturado com Spies under Von Magnet influence (Cinetiks + Celestial Dragon + Thisco; 2006). O culpado de eu ter este pedaço de depravação foi o Mister Mike Diana que mo enviou recentemente da terra de Satanás. O single tem uma capa desenhada pelo próprio! [4,1; mesmo sem aparelhagem vale a pena ficar por causa da capa do Mike D.]

E quando já estava bem chateado, apareceu o Renas (do Crew Hassan) que trocou Junkie XL por um CD dos Mighty Mighty Bosstones - urrraaaa!!! Claro que não conhecendo "Pay attention" (Island Def Jam / Universal; 2000) passei a faixa 6 e deu logo para concluir que estava perante um belo pedaço de merda Ska norte-americano mas fiquei feliz em ter trocado algo... Por acaso não há nada mais irritante como este Rock mal-amanhado misturado com metais roubados ao Ska (ou será o contrário? Ska mal-amanhado com guitarras roubadas ao Rock?) e toda esta falsa boa-disposição e boa-onda de parolos brancos - há lá um preto, é certo mas deve ser parvo por se meter com sete brancos parolos. Nem é carne nem é peixe, pelo menos o Ska americano tem um sabor terrível de falsidade que não consigo descrever ou então são estes veteranos da cena que não me convencem. [2; pronto para a próxima festa de discos ou então ofereço ao camarada Pirata]